Relatório do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas alerta para a falência hídrica global, com sistemas essenciais já em colapso, diz Kaveh Madani
O planeta enfrenta um esgotamento acelerado de recursos hídricos, com impactos diretos na produção de alimentos, na biodiversidade e na estabilidade social.
Em várias regiões, retiradas de água superam a capacidade natural de reposição, e reservas subterrâneas e superficiais estão sendo usadas como se fossem ilimitadas.
As conclusões e dados preliminares serão apresentados em um encontro em Dacar, antes da Conferência da ONU sobre a Água de 2026, conforme informação divulgada pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.
O que os dados mostram
O relatório registra sinais de colapso em diferentes sistemas hídricos, com estatísticas que ilustram a gravidade da crise em curso.
Segundo o estudo, “cerca de metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume desde o início da década de 1990”, e essas reservas abastecem aproximadamente 25% da população global.
O documento também afirma que “cerca de 70% dos principais aquíferos apresentam níveis em queda contínua”, comprometendo reservas estratégicas de longo prazo.
Além disso, os autores apontam que “nos últimos 50 anos, esses ambientes perderam cerca de 410 milhões de hectares”, área equivalente a todo o território da União Europeia, fato que reduz capacidade de regulação hídrica e afeta habitats.
Causas, qualidade e consequências
Os pesquisadores relacionam a crise à combinação de uso excessivo, mudanças nos padrões de precipitação e gestão insuficiente, com setores econômicos intensivos em água consumindo reservas além do sustentável.
O relatório destaca também a degradação da qualidade da água, por contaminação por agroquímicos, esgoto não tratado, resíduos de mineração, poluição por plásticos e substâncias químicas de medicamentos e produtos de higiene.
Em áreas densamente povoadas, são registrados surtos de algas tóxicas, presença de microrganismos patogênicos e níveis elevados de poluição, o que agrava riscos à saúde e à produção agrícola.
Alerta e recomendações dos autores
Durante a apresentação em Nova York, o diretor do instituto, Kaveh Madani, afirmou que “muitos desses sistemas essenciais já colapsaram e que os danos ecológicos tendem a se aprofundar, com reflexos diretos em conflitos sociais e econômicos”, destacando a urgência de mudanças.
Os autores defendem que governos adotem uma gestão voltada para a escassez, com medidas para evitar danos irreversíveis aos ecossistemas aquáticos e reduzir o consumo excessivo em setores intensivos em água.
Usando uma analogia financeira, o estudo diz que muitas sociedades já consumiram toda a “renda” anual de água renovável e passaram a esgotar suas “reservas”, levando secas pontuais a se tornarem escassez permanente.
Próximos passos e o calendário da ONU
O relatório será apresentado nos dias 26 e 27 de janeiro, em Dacar, no Senegal, em um encontro preparatório para a Conferência da ONU sobre a Água de 2026, marcada para ocorrer entre 2 e 4 de dezembro, nos Emirados Árabes Unidos.
Especialistas afirmam que reconhecer a realidade da falência hídrica e implementar políticas de gestão da escassez hídrica será decisivo para garantir segurança alimentar, estabilidade social e equilíbrio ambiental nas próximas décadas.











