Agiotagem no Amazonas, vítima do grupo preso relata ameaças frequentes e ‘vou sequestrar teu filho’, dívida de R$5 mil virou mais de R$500 mil

Servidora do Tribunal de Justiça relata esquema de agiotagem no Amazonas, com cobranças violentas, ameaças de sequestro e morte, e indícios de lavagem via banco de fachada

Uma servidora do Tribunal de Justiça do Amazonas, que preferiu não se identificar, descreveu as intimidações e as ameaças frequentes feitas por integrantes de um grupo acusado de agiotagem no Amazonas.

Segundo ela, a cobrança começou após um empréstimo de cerca de R$ 5 mil em 2019 e progrediu para uma dívida que hoje ultrapassa R$ 500 mil, com perdas que somam mais de R$ 1,5 milhão por transferências e entrega de bens.

A denúncia levou à operação da Polícia Civil que resultou na prisão de seis suspeitos, incluindo o dono de um banco apontado como fachada para lavar os valores do esquema, conforme informação divulgada pela Rede Amazônica.

Como funcionava o esquema e as ameaças sofridas pela vítima

A servidora disse que os agiotas usavam violência, intimidação e mensagens graves para forçar o pagamento. Em áudios obtidos pela investigação, um dos suspeitos ameaça, “Pô, cara, tu não tem palavra mesmo não, né? Se tu não tem palavra, eu tenho. Entendeu? Vou mandar sequestrar teu filho hoje. Eu vou querer meu valor, tudinho que eu te emprestei, entendeu? Valor integral. Já esperei muito. Quando eu falo, eu cumpro as coisas que eu falo, entendeu? Diferente de você, porque você não tem palavra”, afirmou.

Além das ameaças por áudio, a servidora relata ter sido abordada no estacionamento do tribunal e forçada a entrar em um veículo com um dos agiotas. Em outro registro apreendido, membros do grupo afirmam que pretendiam atacar veículos oficiais, dizendo, “Vou fazer escolta lá na frente do tribunal. Vou te pegar, vou metralhar o carro corporativo do Tribunal de Justiça, entendeu? Vou te matar ainda hoje”.

Danos financeiros e repercussão na vida pessoal

A vítima contou que, além das transferências bancárias, entregou dois imóveis e um veículo ao grupo. Ela afirmou que a pressão psicológica destruiu sua rotina e suas relações, “Todo mundo com medo, amedrontado. Você fica assim, sem nada, sem nada, absolutamente nada, nada. Meu lar está destruído. Eu destruí minha relação com os meus filhos, minha relação familiar, meu casamento, tudo por conta de dívida com agiotas”, lamentou.

Ao decidir denunciar o esquema, a servidora disse que alcançou um limite, e que se arrepende de não ter procurado ajuda antes, “Eu devia para mim e para a minha família uma posição e uma atitude. Eu não tive outra alternativa. Porque se lá atrás eu tivesse resolvido da forma certa, eu não estaria nessa situação”.

Ação policial, apreensões e suspeita de lavagem de dinheiro

Na operação deflagrada nesta quinta-feira, a Justiça autorizou prisão preventiva, quebra de sigilo telefônico e mandados de busca e apreensão dos suspeitos. Foram recolhidos celulares, dinheiro, computadores e armas.

O delegado Cícero Túlio, titular do 1º Distrito Integrado de Polícia, afirmou que o grupo era formado por diferentes núcleos que miravam servidores públicos, especialmente de tribunais e órgãos oficiais do Amazonas. Segundo a investigação, Ikaro Michel, apontado como chefe, é dono do Banco Life, usado como fachada para o escoamento dos recursos ilícitos.

“O Ikaro tinha uma função de destaque em relação a um dos núcleos investigados pela Polícia Civil, acabou criando um banco de fachada pra fingir escoar os valores que eram oriundos das práticas criminosas. Durante as investigações a gente conseguiu identificar que o banco servia como fachada para fins de realizar o escoamento e a dissimulação dos capitais oriundos dessa prática”, disse o delegado.

Com Ikaro Michel foram apreendidos cerca de nove veículos, dinheiro, celulares, computadores e uma arma encontrada em cima de uma geladeira, segundo a polícia.

Próximos passos do caso e posição das partes

Até o momento, a investigação identificou pelo menos cinco vítimas, incluindo a servidora que denunciou as ameaças. O Tribunal de Justiça do Amazonas informou que não vai se manifestar sobre o caso, e a defesa de Ikaro Michel declarou que só se pronunciará após ter acesso ao inquérito.

A apuração segue em curso, com análise de áudios, vídeos e movimentações financeiras, e a polícia deve encaminhar os autos para as autoridades competentes para continuidade das investigações sobre agiotagem no Amazonas e possíveis crimes conexos, como lavagem de dinheiro e extorsão.

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