Yandra Mawé viraliza ao comer tanajura e mostrar rotina Sateré-Mawé e Ticuna no Ariaú, mobiliza reforma de escola e reúne mais de 600 mil seguidores

A rotina de Yandra Mawé, menina de 6 anos que cresce entre as culturas Sateré-Mawé e Ticuna, virou conteúdo viral nas redes sociais, com vídeos que mostram desde a alimentação com tanajura até grafismos tradicionais.

O perfil da família passou de um registro íntimo para uma plataforma que ampliou a visibilidade da comunidade às margens do rio Ariaú, em Iranduba, e atraiu atenção institucional, incluindo a visita de ministros.

Os relatos e ações desencadeadas pela repercussão são parte de uma estratégia da mãe de Yandra, que administra o perfil e busca reforçar educação e identidade indígena, conforme informação divulgada pelo g1.

Como os vídeos começaram e se tornaram visibilidade

O perfil de Yandra foi criado no dia 10 de outubro de 2019, data do nascimento da menina, inicialmente para guardar memórias da família.

Segundo a mãe, Kian Sateré-Mawé, “Criei o Instagram no dia 10 de outubro de 2019, quando a Yandra nasceu. O objetivo inicial era guardar memórias. Eu não tinha um celular com memória suficiente para armazenar fotos e vídeos, então a rede social se tornou um espaço para registrar o crescimento dela”.

O conteúdo ganhou impulso a partir de 2024, e vídeos como o que mostra Yandra falando sobre a tanajura despertaram curiosidade nacional. Hoje o perfil reúne mais de 600 mil seguidores, e os comentários variam entre agradecimentos pela valorização cultural e encantamento com o carisma da criança.

Sobre a repercussão, a própria Yandra afirmou, “Quando eu gravo vídeos, eu fico muito alegre, porque eles chegam em muitas pessoas. Quando eu mosto minha vivência para as pessoas, eu fico muito feliz, porque elas aprendem a minha cultura também”.

Da internet à política, a mobilização pela escola da comunidade

Entre os desdobramentos práticos da visibilidade, a mãe relata que a exposição da situação da escola local foi decisiva para a chegada de apoio.

“Compartilhei a situação da escola da minha comunidade, que estava há mais de oito anos sem estrutura física adequada. Após a repercussão, foi anunciada a construção de uma unidade escolar. Isso reforçou em mim que a visibilidade, quando conduzida com responsabilidade, pode contribuir para avanços concretos”, disse Kian.

Na sequência da repercussão, o ministro da Educação, Camilo Santana, esteve no Amazonas e anunciou recursos para a construção de uma nova escola para a comunidade onde vive Yandra, sinalizando que a presença online pode gerar resultados em políticas públicas.

Além da pauta da escola, a exposição levou convites para eventos institucionais, como a Marcha das Mulheres Indígenas e agendas no plenário da Câmara dos Deputados, onde Yandra circulou acompanhada de lideranças indígenas e representantes do governo federal.

Cultura, grafismo e educação como pilares da identidade

Kian explica que a identidade de Yandra é construída na convivência com duas tradições diferentes, mas complementares, já que ela é Sateré-Mawé por parte de mãe e tem ascendência Ticuna por parte de pai.

“Sou Sateré-Mawé e o pai da Yandra é Ticuna. Ela cresce entre essas duas culturas indígenas, aprendendo os ensinamentos, as línguas e os costumes de cada uma”, afirmou a mãe.

Na prática, isso significa que a menina aprende sobre alimentos da floresta, histórias dos mais velhos e grafismos tradicionais, transmitidos pela família. Kian atua como grafista indígena e explica o uso do jenipapo para pintura corporal.

“Sou grafista indígena e trabalho com o jenipapo na pintura corporal tradicional. Cada grafismo tem significado e está ligado à nossa identidade”, declarou Kian, que também cursa licenciatura indígena na Universidade Federal do Amazonas, com o objetivo de fortalecer a educação dentro das comunidades.

Responsabilidade, preservação da infância e sonhos

Mesmo com a exposição pública, a família adota cuidados para preservar a infância de Yandra e controlar o que é publicado.

“Eu faço questão de preservar essa infância. Ela não tem acesso livre às redes sociais. Todo o conteúdo é supervisionado por mim e pela família, e publicamos com cautela. Se essa visibilidade fortalece nossa identidade, amplia o respeito e contribui para minha comunidade, acredito que estou seguindo um propósito coerente com nossa história”, afirmou Kian.

Yandra, apesar da projeção, mantém desejos simples e fala sobre profissões e sonhos, “Ela continua sendo criança. Sonha de forma simples. Já disse que quer ser cantora, bailarina e médica. Agora fala que quer ser presidente, porque acredita que assim poderá ajudar as pessoas e construir casas”.

A partir da rotina à margem do rio Ariaú, os vídeos de Yandra Mawé abriram um debate sobre representatividade indígena, preservação cultural e como a presença nas redes pode se traduzir em ações concretas para melhorar serviços e infraestrutura nas comunidades.

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