Facções criminosas no Amazonas, Comando Vermelho em 19 cidades e PCC restrito a Coari, Alto Solimões vira rota do tráfico e 25 municípios com atuação de grupos

A presença de organizações criminosas no Amazonas atinge pelo menos 25 dos 62 municípios, em um mapa que combina controle de rotas fluviais e fragilidades sociais.

O levantamento identifica o avanço do Comando Vermelho em várias áreas e aponta que facções estrangeiras atuam em parceria com grupos locais, ampliando o fluxo de drogas na região.

As informações detalham ainda concentração de violência no Alto Solimões e impactos em cidades de fronteira, conforme informação divulgada pelo g1 com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Onde as facções atuam e quais são os grupos

Ao menos 25 dos 62 municípios do Amazonas possuem atuação de facções criminosas, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O consolidado, publicado em dezembro de 2025, mostra também que em pelo menos quatro municípios há duas ou mais organizações criminosas.

O estudo detalha que o Comando Vermelho, o CV, está presente em 19 cidades de forma única, enquanto o Primeiro Comando da Capital, PCC, atua apenas no município de Coari. Já os Piratas do Solimões lideram as ações criminosas em três municípios do estado.

Alto Solimões, rotas e presença de grupos colombianos

A região do Alto Solimões, no sudoeste do Amazonas, se consolidou como uma das principais rotas do tráfico internacional de drogas na Amazônia, com forte atuação e disputa de dois dos maiores grupos criminosos do país, o Comando Vermelho, e o Primeiro Comando da Capital.

A região concentra 281 mil habitantes, dos quais 54% são indígenas, e registra altos índices de vulnerabilidade social, mais de 80% da população está inscrita no CadÚnico e 64,7% recebe Bolsa Família.

O estudo destaca que a confluência geográfica, porosa e praticamente sem fiscalização, transforma o Alto Solimões em porta de entrada da pasta base produzida nessas áreas do Peru e da Colômbia.

Fronteiras, cidades mais afetadas e dados locais

Tabatinga concentra a maior parte da população local e faz fronteira seca com Letícia, Colombia, sem controle migratório, e em 2024 registrou 31 das 52 mortes violentas da região, com taxa de 42,9 por 100 mil habitantes.

Benjamin Constant funciona como eixo entre Tabatinga e Atalaia do Norte, com circulação intensa de embarcações, e Atalaia do Norte tem rotas florestais usadas pelo tráfico. Municípios como São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins, Fonte Boa e Jutaí aparecem com baixa presença estatal e rotas alternativas para escoamento de drogas.

Impactos, parcerias e lacunas na resposta pública

Em pontos do norte do estado, surgem parcerias com grupos colombianos, o Estado Maior Central atua em Japurá e a facção Ex-Farc Acácio Medina em São Gabriel da Cachoeira, ambos em operação com o Comando Vermelho para fornecer maconha e cocaína na região.

O g1 questionou a Secretaria de Segurança Pública, SSP, quais ações estão sendo implementadas no combate às organizações criminosas, mas até a publicação desta reportagem não houve resposta.

O cenário descrito pelo estudo mostra desafios de fiscalização, infraestrutura e políticas sociais, elementos que, segundo pesquisadores e lideranças locais entrevistadas, favorecem a atuação das facções e exigem estratégias integradas entre segurança, saúde e assistência social.

Lista de municípios citados no levantamento, entre outras localidades com registro de atuação ou risco, inclui Anamã, Atalaia do Norte, Barcelos, Benjamin Constant, Borba, Carauari, Coari, Codajás, Envira, Guajará, Iranduba, Itacoatiara, Itamarati, Japurá, Jutaí, Lábrea, Manacapuru, Manaus, Maués, Parintins, Rio Preto da Eva, Santo Antônio do Içá, São Gabriel da Cachoeira, São Paulo de Olivença, Tabatinga, Tefé e Tonantins.

O estudo usado para consolidar os dados combinou informações de órgãos públicos, organizações sociais e pesquisas acadêmicas, além de entrevistas com gestores, lideranças comunitárias e especialistas, com o objetivo de mapear experiências promissoras de prevenção e enfrentamento ao crime e à violência na Amazônia.